COLUNAS

Textos escritos por montanhistas abordando histórias interessantes mescladas com questões do esporte.

AS ENCOSTAS E OS ALPINISTAS
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​Quando comecei a escalar na década de 1970, esse problema era ainda pequeno. Na imensa maioria das vias, em todas as grandes rochas da cidade do Rio de Janeiro, não havia problema. A exceção ficava por conta dos paredões norte do Morro da Urca e alguns poucos outros, como a face sul do Irmão Menor do Leblon. Me lembro de uma via que colegas queriam conquistar, mas não conseguiam acesso, e o dono de uma das casas, de nome Bill, por alguma razão, tomou conhecimento da ideia e liberou a passagem. Acho até que houve oferta de comes e bebes aos conquistadores. Espero que eles estejam lendo essa coluna e se lembrando dos bons tempos. A atitude daquele morador foi inédita, e a via passou a se chamar... como? BILL LIBEROU.

Lembro da primeira vez no UNICEC, escalada que fiz pela primeira vez de kichute debaixo de chuva, naquele “curso de adestramento em montanha”, ainda bem com o mestre em aderências Bernardo na cola, coordenado pelo Prata e seu escudeiro Felix Cabeça-de-lata. Para chegarmos à base, tivemos que dar a volta em diversas casas, com os latidos de sempre do eterno cachorro que fica por lá. Aquele cachorro deve ter uns 60 anos de idade, continua lá até hoje, latindo!

 

Atualmente, ainda tendo prazer no UNICEC, e levando amigos novos que não conhecem aquela via com seus lances de pura aderência, agora de mythos no lugar do kichute, que dispensa segurança, temos que dar uma volta bem maior. Chegará o dia em que não conseguiremos mais chegar na base norte do Dona Marta? Hoje uma profusão de novas vias se somaram ao UNICEC desde aquela época, das quais cito a agora também antiga e ainda uma gracinha, a 30 de Julho, conquista do MM, gente boa. Olhando croquis recentes na rede, sinto falta do nome do meu amigo Natanael, conquistador de dezenas de metros do UNICEC e cujo nome estranhamente não aparece na lista dos conquistadores. Aliás, descobri que isso não é uma exceção rara.

Mas nesses tempos modernos, depois de décadas de governos que não valorizaram a educação, achando que não tem conexão com violência, estamos nesse estado de não poder mais escalar várias vias porque seremos assaltados, e isso não é divertido. Nas décadas de 1970/80, já existiam assaltantes, como desde sempre, mas eram exceções, agora são frequentes e estão por toda parte. Lembro eu e Poyares escalando o CEB60 em 1979, treinando para a ETGM, Poyares guiava o último esticão quando parou antes do fim, olhou para mim e fez sinal de silêncio. Fiquei preocupado! Logo começou a desescalar o lance, até a última costura, de onde me chamou e rapelamos em silêncio. Havia dois muito prováveis assaltantes no cume, meu primeiro encontro de terceiro grau com a violência na montanha.

Outros viriam, como o que tivemos eu, Ramos e mais um guia que não lembro, levando uma turminha de CBM na Tijuca. Eu e Ramos nos olhamos quando fomos abordados por 7 pivetes, um com uma arma que parecia uma espingarda, mas eu sabia que era fake, porque tive uma. Nos olhamos e pensamos em rreagir, mas havia muitas facas e meninas e resolvemos não comprar o risco e negociar. Conseguimos os documentos e as chaves dos carros. Nos deixaram de cuecas e calcinhas.

Será que aparecerá alguém para brigar pelas nossas encostas? Poderia a FEMERJ se juntar nessa luta? No nosso tempo os clubes se uniam e faziam as coisas acontecerem. Fazíamos as ETGMs, os CBMs, nos juntamos para tirar 6 toneladas de lixo da trilha da Gávea. Não vejo mais movimentos desses.

Chegamos ao ponto de nós mesmos blo-quearmos vias em 2004, quando alguns escaladores que destruíram o totem do Costão sem autorização legal, já que as licenças de autoridades legais nunca foram apresentadas. Nesse caso, escaladores por conta própria segre-garam o acesso ao Costão, pois a dificuldade original de 1o grau passou para 3o grau, na prática bloqueando a via para milhares de cidadãos.

No nosso país, pessoas, organizações ou grupos privados por vezes exercem mais autoridade sobre áreas públicas do que o governo, exemplificado por tantos fa-tos, como os proprietários de terrenos em encostas que eliminam o acesso a elas por ignorância ou simples desres-peito ao direito dos outros.

Convido os escaladores de clubes, individuais e grupos de interesse, todos, a se juntarem e lutarmos a favor de uma manutenção mínima de acesso às encos-tas, ou ainda perderemos muitas das novas e antigas vias de nossas vidas. Poderíamos começar consultando a Pre-feitura sobre limitação de acesso. A lei parece estar do nosso lado.

Doca

P.P. de Lima-e-Silva

1 de julho de 2019

(Atualizada em 28/08/2019)

O QUE É SER UM GUIA?
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Um amigo, Guia de Montanha, comentava sobre requisitos para ser Guia, o que me fez pensar nova­men­te sobre o que é ou deveria ser um Guia de Mon­ta­nha. Voltei atrás no tempo para buscar elementos que pudessem sustentar técnica e racionalmente uma tentativa de definição. Me “graduei” na ETGM de 1980, junto com Marcos (Dedé), Poyares, Antonio e André (Zega). Sou do tempo em que se ensinava um candidato para ser um Guia responsável, estar preparado para as possíveis contingên­cias, prestar socorro a alguém machu-cado, e acima de tudo, tomar decisões rápidas, seguras e eficazes. O Guia é um líder, o cara que sabe escolher quem vai subir a parede ensaboada, ou fazer a comida, e quem vai traçar a rota. E sabe fazer um pouco de tudo para poder orientar. Não é o melhor cozinheiro, mas sabe cozinhar. Não é o melhor navegador, mas sabe navegar com a vegetação, com a bússola, GPS, es­tre­las, Sol. Tem preparo, conhecimento: está sem­pre esperando o inesperado.

Um Guia de Montanha é aquele que observa uma situação, assume a iniciativa e para todo problema tem uma resposta, uma solução.

Caso‑1: Caverna Alambari-de-cima, PETAR, 1983. A caverna é um túnel que vem do topo da montanha e desce um rio por ela com muita energia, o ruído é grande. A entrada embaixo sobe o rio. A primeira cachoeira, bem vertical e paredes lisas, tinha uma corda fixa para auxílio. Quando chegaram, os paulistas haviam tirado a corda. O Guia A da excursão olhou para cima e percebeu que não era impossível quanto parecia. Viu Marcelinho conver­sando, chamou a fera, apontou para cima “O que acha?”, “Acho que dá.” Parecia um 7o grau. Embaixo havia uma quina de pedra à beira do poço. Se ele caísse, bateria na quina. O Guia orientou todos que sentassem na quina, e se Marcelinho caísse, seria desviado para o poço. Ele foi bem "marce­linho", passou, prendeu a corda e subiram todos.

Um Guia de Montanha é o cara que está ali para assumir responsabilidades, sem ser o Chefe. O Chefe é um cara que manda, o Guia não man­da, lidera, orienta. Um Guia pondera e decide, porque a indecisão é irmã do desastre.

Caso‑2: Excursão à  Pedra Bonita, 1980, ETGM. no cume, o Instrutor da ETGM orienta os alunos para descer pela costa oeste, na época sem trilhas. No terço de cima, simula um acidente. O aluno A, guiando o trecho, pede a opinião dos ou­tros. O aluno B, perguntado, responde de pronto, “vamos descer, subir é complicado e vai demorar muito. Damos a volta na Pedra e pegamos a trilha da Chaminé Eli para o estacionamento.” O aluno A leva mais de 20min para decidir e acaba resol-vendo subir. Na reunião de fechamento, o Instrutor explica que "pior do que tomar uma decisão ruim é não tomar decisão". A indecisão causa insegurança no aciden-tado(a), e ele(a) a­guen­tará muito mais dor e tempo se sentir que está nas mãos de quem sabe o que fazer e responder rápido. Ele explica que, apesar de a decisão proposta pelo aluno B não ter sido a melhor, foi quem respondeu rápido, e já estariam a meio caminho de alcançar um carro. O aluno A posteriormente foi eliminado do curso.

Um Guia de Montanha precisa perceber o momento em que algo não está bem, e um risco surge no hori­zonte. Aquele momento em que alerta o bando para um situação arriscada, para parar, pensar e traçar uma linha de ação.

 

Caso‑3: Três guias estavam explorando um caminho complexo através de uma montanha (Caverna do Diabo) para criar uma excursão com usuários de um clube. Em dado momento, não encontravam mais o caminho de volta. O guia A parou e falou que a brincadeira estava boa, mas o tempo estava passando; chamou os outros, abriu a bússola, o mapa, orientou o mapa, localizou o erro e reencontraram o caminho certo. O caminho foi traçado e se tornou uma excursão histórica no clube, repetida com muitos sócios do clube mais duas vezes, num tempo de 12h.

Um Guia precisa ter qualidade nos 1os socorros e ter sempre material de so­corro. Precisa conhecer bem as cordas e os nós, os nós de emergência, dos quais um acidentado pode de­pen­der. Conhe-cer topografia, se orientar por ela, ler um mapa em papel ou eletrônico e as simbo­logias, saber o que fazer se a bateria do celular aca­bar, controlar as horas de luz que ainda restam.

Um Guia de Montanha precisa conhecer suas limitações, saber do que é capaz e do que não é. Co­nhecendo seus limites, será competente no que se propõe. Um Guia cuida da segurança de todos, sem ser autoritário, é obedecido por compe­tência, não por diretriz. Sempre haverá difi­culdades acima. Deve ser preparado para ser um educador, não um escalador de ponta. "O ótimo é inimigo do bom", diz o ditado. Exi­gir que ele escale no nível de escaladores dedicados é não enten-der o papel do guia na sociedade. Ele está ali porque a socie-dade precisa de gente que vá ensinar com correção, que proporcione acesso do público leigo e dos turistas ao esporte de forma segura.

Um Guia de Montanha precisa ser tudo isso, e um pouco mais, só não precisa encadenar 7o grau. Esse vai aparecer se houver demanda. Exigir isso para sua formação, amadora ou profissional, é como exigir que um professor de autoescola dirija feito um piloto de Fórmula 1, que para ser bombeiro tenha apagado 5 andares em chamas, que para ser médico tenha salvado um canceroso terminal. É colocar a habilidade de execu­tar o extremo acima da compe-tência, do autoconhecimento e da responsabilidade de conduzir.

Doca

P.P. de Lima-e-Silva

1 de agosto de 2019

(Atualizada em 28/08/2019)

FAÇA AMOR NÃO A GUERRA

Escalar pode ser somente um exercício físico. Pode ser uma arte para alguns, uma atividade, segundos psicólogos, de alta capacidade de pulverizar estresses.  Pode ser uma descarga de adrenalina, ou simplesmente um passeio matutino, vespertino ou à luz do luar. Pode ser um treinamento de guerrilha, e quem conhece meu instrutor de curso básico de montanha, há décadas perdido no tempo (o curso), sabe do que falo.

 

Ultimamente, no entanto, conseguiram entremear essa atividade antes de alto nível de desestresse e paz com abor-recimentos. Trouzeram a "guerra" para dentro da escalada. Em vez de falarmos da beleza da paisagem, das dificuldades físicas e técnicas, dos riscos e do ma-terial, do tempo e do vento, me pego discutindo chapeletas (no sentido lato, a coisa toda, bolts) versus grampos, os grampos-P. Vivemos décadas em paz, as chapeletas nos tetos e negativos, quan-do uma queda vai tracionar axialmente, e os grampos-P na vias verticais e posi-tivas, quando a queda vai tracionar no cisalhamento.

Como escalador e profissional há 40 anos na engenharia de segurança, resolvi olhar de perto. A primeira visão foi ver um olhal que é peça separada do chumbador e tapa a visão do que está por trás. Assustador para um Engenheiro de Confiabilidade. Os grampos-P se mostram, são transparentes de seu es-tado. Obedecendo ao compromisso do saite de ser objetivo, sem ideais teóricos e sem preconceitos. Segui o método científico e técnico dos engenheiros de confiabilidade, uma ciência nascida da 2a Guerra e solidamente desenvolvida na era espacial. Técnicas foram desen-volvidas avaliar a probabilidade de su-cesso antes de por em prática, pois mísseis e foguetes são caros para serem desperdiçados em testes.

Resumindo o método, começa-se o estudo de um sistema pelo histórico con-tido nos bancos de dados. Buscam-se registros de falhas suficientes para se-rem estatisticamente significativas e a taxa de falha a ser aplicada. Caso os re-gistros históricos sejam insuficientes, par-te-se para o cálculo via álgebra boolea-na, árvores de falhas, árvore de eventos, e outras técnicas. Nos grampos-P, saltou aos olhos um dado arrasador. Busquei em todas as fontes que pude ter acesso, além da Internet, por meses tentar en-contrar um acidente com danos graves ou fatais devido à falha de um grampo-P.

O impressionante desse não-registro que gerei, é a pleonástica ausência de registro. Não encontrei, depois de entre-vistar mais de 30 escaladores seniores e alguns bem idosos, para ter fontes desde a década de 1950, um único acidente grave ou fatal com quebra de grampo-P. Levantei saberes orais que contam de grampos que saíam do furo somente puxando-se com os dedos, e grampos de todos os diâmetros, desde 1/4" até 5/8", desde aços altamente resistentes ao nosso clima agressivo até grampos quase em estado de desintegração.

Interrompi minha pesquisa, porque não faz sentido continuar. Nenhum profis-sional ou pesquisador da área em qualquer lugar vai questionar um sistema de segurança que tem o registro recorde no mundo, possivelmente, de 107 anos de idade e zero falha.

Entre burocracias e boletins UIAAs e as copiadas CE e EN, os teóricos de plantão discutem aderências a normas que não são brasileiras e têm origem em países altamente industrializados, ambientes naturais e sociais radicalmente divergen-tes dos nossos. Não é tudo igualzinho. Discutem trocar os grampos-P do alto de sua confiabilidade indiscutível no registro histórico pela chapeletas, es-tranhas no nosso ninho. Para um pesquisador da área de segurança iniciou-se uma dis-cussão se devemos abandonar um equi-pamento com 107 anos de confiabilidade 100% por uma novidade des-conhecida no ambiente nacional. Quantos anos a chapeleta tem de testes no Brasil?

Se a premissa é cientificamente errada, como a partir desta pode-se a chegar a qualquer conclusão certa? Já tivemos um acidente no Pico Maior que poderia ter sido fatal. Escutem a ciência, façam testes, padronizem o aço, certifiquem o grampo-P, controlem a produção, anali-sem o aço dos grampos que estão há 40 anos por aí e inteiros ainda, pesquisem se a palheta de alumínio não é um anodo de sacrifício que preserva o grampo-P, como conjecturou o amigo, Físico e grande escalador Jean Pierre. Há muito o que fazer para valorizar e aumentar a segurança, se isso é possível, dos nos-sos brasileiríssimos, baratos, acessíveis, grampos-P de aço. Há 107 anos segu-rando intrépidos escaladores das rochas do nosso belo país.

Evolução significa aprimorar. Neste país o objetivo parece ser muitas vezes destruir o que existe para ser autor de um novo, frequentemente pior que o antigo. Podemos fazer melhor, podemos mostrar como somos criativos e originais. Só precisamos de um pouco de iniciativa e ousadia, não copiação eterna.

Doca

P.P. de Lima-e-Silva

3 de janeiro de 2020

Montanha laranja